28 junho 2006

Vestido de nada.

Tempo Afora
[ Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede ]

Onde mora a ternura onde a chuva me alaga
onde a água mole perfura dura pedra da mágoa
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo a fora
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo a fora

Quando o carinho acontece quando a garoa é macia
e se cura e se esquece a dor num canto vazio
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo afora
Onde a alma se lava aonde o corpo me leva
onde a calma se espalha onde o porto me espelha
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo a fora
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo a fora

Quando me lembro de tudo quando me visto de nada
e me chove e descubro quanto você me esperava
eu tenho o tempo do mundo tenho o mundo afora
...

Porque as vezes é necessário saber desviar os olhos e conter-se.
Foto: "Persistência da Memória" De Salvador Dalí.

16 junho 2006

Opostos e Trocados

Encontrei-me, por acaso, com um homem que não sabia sorrir.
Olhei no espelho e ele se escondeu, piscou o olho e soletrou-me algo que não entendi, mas notei que ele estava a zombar de mim.
Ao deitar, avistei uma mulher que não sabia falar, apenas sorria e chorava dissimuladamente lúcida.
Como eram belas suas feições;
Como doiam aos ouvidos seus gritos e gemidos mudos.
Dei as costas e ela escondeu-se nas sombras do quarto. Não entendi o que ela me disse em sua linguagem de dedos ágeis e corpo rítmico, mas, pelos seus olhos, suspeito que ela estava a se lamentar por mim.
Não consegui dormir...
Liguei o som num cd qualquer e embalei-me na melodia doce de um samba.
O "Bonde do Dom" trouxe uma criança consigo, e esta não sabia chorar...
Ficamos calados e praticamente inertes durante algumas horas.
Lembrei-me do Pequeno Príncipe e suas viagens mágicas ao fitar o rosto meigo daquela criança e, numa antítese insana, lembrei-me de Rita e sua Paulicéia Desvairada ao penetrar os olhos na lágrima cheia de mistérios que não se permitia cair.
Pouco depois, com um sorriso na voz e beijando-me a mão direita, ela sussurrou em meu ouvido: "Eu te entendo... pode abrir os olhos."
(...)
Acordei-me assustado num misto de sentimentos opostos e trocados.
Choro ao tocar o chão com os pés;
Sorrio com a água fria em meu rosto,
e sem dizer palavra alguma, calcei um sapato qualquer e fui andar por lugar nenhum,
atrás de encontrar ninguém no infinito seguro de mim.
Márcio Dorvillé - 16/06/06
*Bonde do Dom - Música de Marisa Monte. Encontra-se em seu trabalho mais recente, Universo ao meu redor(Faixa 02)