30 novembro 2006

# Quinta - feira (sem meias palav... meio e ponto)

Encontros e Desencontros de sofia Coppola
Agora... talvez mais tarde... mas não tão tarde...nem tão cedo... agora.
Talvez ontem. Amanhã não se sabe... depois, já não sei.
... agora.
Que seja doce.
Na calçada, mês passado, encontrei suas pegadas antigas. Estava em frente a um consultório médico... psicólogo, psiquiatra, não sei diferenciar bem, apenas sei que um fez humanas e o outro biológicas... você, exatas.
Eu?
Não muito exato...
Estive olhando uma foto de nós dois... sabe, aquela que nunca tiramos, mas que mostramos pra todo mundo. estava um pouco amaçada na gaveta, acho até que começou a amarelar nas laterais. Gosto de você assim: sorrindo e brincando comigo... falando sério, mas do meu lado... longe mas contando comigo... como numa fotografia recentemente velha.
Gosto do meu oposto. Do meu gentil sensato, do agressivo responsável e consciente. Gosto do exato... mas prefiro o impreciso.
... Prefiro o meio... do texto... o meio... o ponto... antes do final... mas o ponto.
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27 novembro 2006

# Segunda - Feira (Todo dia...)

Estava encostado alí... naquele mesmo lugar que sorri sem perceber que me observavam. Os álibis sussurrados de Djavan saiam de alguma vitrola antiga... mas se fez perceber de longe. O dia estava quente mas a chuva continuava caindo como se não importassem os passos molhados e apressados que andavam de cabeça baixa na rua Alagoas. Parei no sinal e comprei pipoca doce... me encolhi confortavelmente numa banca e me cobri com arnaldo antunes na capa de uma revista... procurava meu pedacinho de frio, um conforto remasterizado, uma informalidade com minha própria sombra. Passei o resto da tarde procurando esse pedaço de mim que havia esquecido em algum lugar do eu que não sou eu, mas que faz parte de mim, ao menos de um todo (quase) indivisível. Sentei num barzinho e fiz-me rir de tudo, do que não importava e daquilo que só criava certa graça depois de alguns copos de cerveja escura e calças desabotoadas... eu estava me divertindo, de fato.

A noite continuava quente, e nada esfriaria aquela "vontade de viver" que o bar e seu ambiente me dera. Tornei-me um clichê de falas e gestos. Músicas que ninguém mais toca (tampouco ouve ou lembra), palavras que ninguém na terra da garoa conhece, gestos que negam minha rotina mas que me formam.


Como Marisa, "mesmo triste eu estava feliz"... e fiquei assim o resto do dia que já não era dia, na madrugada que lembrava a noite passada e tantas outras noites que não passaram. Usando referências musicais e melodias inventadas por mim, adormeci sem sonhar... isso eu já faço bem acordado.

"Debaixo d'água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido
só faltava respirar... todo dia... todo dia."
[ Debaixo d'água - Maria Bethânia ]

09 novembro 2006

# Quinta - feira (são apenas mãos...)

Brokeback Mountain de Ang Lee
Deu de ombros e parou para falar com alguém na esquina. Naquele momento eu sabia que não queria... sabia também que no minuto seguinte eu tentaria argumentar de frente ao espelho.
Olhou por entre os corpos que dividiam - para nós - a sala em duas. Fixou-se num determinado ponto que preferi acreditar não ser minhas mãos.
- "Como aparentam ser frágeis suas mãos"...
... ou algo parecido. Você sente, quem duvida disso?
Queria poder dizer algo diferente, algo que seus ouvidos suspeitassem ser real, um sussurro onírico como o que ouvi há alguns meses e percebi que de nada valia minhas percepções quando olho no olho e palavra nenhuma permanecia gritando por todo aquele espaço que se assemelhava ao nosso corpo. Dois vazios imensos momentaneamente preenchidos.
No instante seguinte estamos sentados na escada esperando o elevador parar... devemos entrar?
Estúpida dúvida que reprime momentos... instantes, reprime os instantes. Entramos e nos tornamos dois estranhos novamente, mas percebo como você me olha. O que tenta ver? Mostro tudo o que não sou e você percebe meu nervosismo, meu teatro mal ensaiado, minha personagem contruída as pressas... e sorrimos. Eu desconcertado e com cara de bobo, você doce e compreensivo, mas se pergunto - sem querer saber e já sabendo - o que foi, você apenas pisca os olhos suavemente - como quem quer deixá-los fechados - enquanto balança a cabeça negativamente com um sorriso no rosto.
Previsível?
Não, apenas discreto e cuidadoso o suficiente para... o elevador chegou ao térreo...
- "Bom dia."
"Ainda lembro o que passou... eu, você em qualquer lugar dizendo 'aonde você for eu vou'. E quando eu perguntei ouvi você dizer que eu era tudo o que você sempre quis... Mesmo triste eu estava feliz e acabei acreditando em ilusões...
Liga o som e apaga a luz."
[ Ainda Lembro - Marisa Monte ]

07 novembro 2006

# Terça- feira (what about...)

Delicada Relação de Eytan Fox

Disseram-me que "extravasar" vale a pena quando se tem algo a dizer... Achei, momentaneamente, óbvio.
Mas o que seria o óbvio se não fossem as contradições, o não ser exato e ter como chão certas imprecisões?
É como se meu silêncio, por vezes, fosse meu modo mais sincero de extravasar. Calar e por um ponto... três deles, e começar uma nova fase, sem apagar o que foi dito, apenas lançando o que havia para dizer num futuro mais oportuno.
...
Gosto dessa palavra - oportuno -, não da derivação oportunista, mas da oportunidade, é bom quando se possue algumas, quando sabe-se aproveitá-las. Ter a oportunidade de dizer que sente muito quando na verdade você queria dizer que nada vale a pena se distante, que tudo é uma pena quando perto demais. É quase mórbido falar do perto, do fechado, do silêncio que incomoda quando sabemos perfeitamente aproveitar tal estado de ausência das palavras.
Evitar o quereres a todo custo, custiar o quereres de outrem... é tudo exercício, é tudo prática, é quase nada de experiência, é praticamente vivência. É paradoxal, verdade seja dita.

Ter pudor não é deixar de amar, é ser impulsivo quando ninguém está olhando, é ser expontâneo ponderadamente, é ter nos olhos o sentimento para quem realmente interessa enxergar. O que você pode me cobrar agora? Que tipo de reconhecimento mesquinho e ingênuo você transformará em afeto? Preciso apenas saber o seu número de calçado e qual cd da Bethânia falta em sua coleção, não é pedir muito...

"We aren't free.
Do you miss my smell?
Do you feel like you belong? ... or just mildly free?
... What about me?..."
[ Accidental Babies - Damien Rice ]

*me impressione!

06 novembro 2006

# Segunda - Feira (luz dos olhos)

Orgulho e Preconceito de Joe Wright
Não sou poeta!
nada que me sai dos dedos é poesia. Sequer saem-me nada dos dedos, nem mesmo possuo dedos.
Não me peçam versos alexandrinos, se quiserem versos brancos fartem-se com folhas de sufite, olhem contra a luz a poesia implícita no branco pré-impresso.
Não sou poeta, sou quase humano, quero ser poesia!
Não quero falar coisas belas, quero invejar Narciso.
Não quero ser corações partidos, quero partí-los.
Quero erguer mais do que uma esferográfica na mão direita, quero ser a caveira erguida de Sheakspeare e chocar a todos sendo ou não sendo, mas que haja sempre uma questão.
Quero ser musicado. Quero que briguem por minha posse, provem minha autoria. Quero sair de um e ser de todos.
Quero que me interpretem mesmo que nunca sejam exatos; quero que me chamem irônico ao chorarem comigo, que se assemelhem a mim, que me tomem como seus... mas sempre serei independente a isso.
Quero virar hino!
Ser declamado no final de uma homenagem, ser simbólico e demodê. Ser citado no Oscar e reconhecido em Cannes.
Quero abrir a novela das oito em Lá menor e permanecer como a única coisa boa da mesma.
Tornar-me universal.
Quero deixar de ser eu e tornar-me poesia, variar de utopia a realista.
Ser poesia e só.
Ser poesia em pó...
"Não sei o que em mim só quer me lembrar
que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois, pouco antes de o ocidente se assombrar... no dia em que fui mais feliz..."
[ Inverno - Adriana Calcanhotto ]