29 janeiro 2007

# Segunda - Feira (Por mim e para mim)

Da Chegada do Amor de Elisa Lucinda

Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.

Sempre quis uma amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.

Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.

Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.

Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.

Sempre quis uma amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.

Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.

Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.

Sem senãos.

Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.

Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.

Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.

Sempre quis um amor não omisso
e que suas estórias me contasse.

Ah, eu sempre quis uma amor que amasse.
* E ainda existem pessoas que afirmam que alguns poetas não falam por nós...
[ Carvão - Ana Carolina ]

23 janeiro 2007

# Terça - feira (1 ano)

Faz um ano... doze meses de palavras soltas que tentam se encaixar em filmes mudos e textos calados, em páginas que gritam em branco, em html's e fontes trebuchet.
Foram pianos intocados que decidiram tocar apenas de ouvido, sem teclas agudas ou graves... mas foi fingido a dor de letras embaralhadas e abundantes que segui minha cabeça confusa e meu corpo trêmulo para chegar aqui... nas frases reticentes que completam o caminho que interrompo a cada olhar rebaixado... fico nos colchetes! Finjo e me reinvento a cada comentário que não está lá, agradeço e sorrio aos dizeres desconhecidos, aos apelos dos novos... de novo. Soa-me familiar as pregas vocais do teclado deste LG cansado.
Abençoado pelos poetas e suas frases emprestadas aos meus dedos, às músicas que descrevem um dia-a-dia, rotina de buteco, boleros dedilhados em prosa, versos que berram os segredos de meus dias para quem quiser ouvir... mas ainda escondo os mais sórdidos nas entrelinhas de um sorriso malicioso.
... você não gostaria de ouvir o que não é dirigido a seu ego inflado ou a sua falta de estima...
Coleciono dicionários, revistas que nunca folheei e jornais do mês passado... eles me dirão muito do que não vivi futuramente, e só assim poderei ver o que perdi para aprender a dar valor ao que ganhei.

... Há um ano...
Um aniversário inesperado, um brinde ao copo trincado pela mudança repetina, pela virada de página, pelo capítulo encerrado, pelo início da jornada... pelos próximos versos, versículos de um livro sagrado que comecei a escrever quando nem sabia o significado de um nome, de meu nome, de teu rosto, desse corpo que desobedece os olhos confusos, desse corpo cheio de gráficos e outras linguagens que não entendo sequer acentos.

Um fingidor... um piano intocado de canto de sala... apenas mais uma expressão... um epitáfio gelado... uma melódica sinfonia... um se... um talvez... alguns ícones deixado na barra de um leitor estúpido.

Tudo isso me forma, tudo foi um início, tudo teve um meio... e ainda estou na metade do caminho escolhido por algo que não sou eu, mas que também não deixa de ser.

- x -

Aos amigos, Fernando Pessoa:
"Reconhecer a realidade como uma forma de ilusão,
e a ilusão como uma forma de realidade,
é igualmente necessário e igualmente inútil."
[ Livro do Desassossego ]

- x -

Vini: um verdadeiro Vivente, vive mostrando-se ao mundo como ele realmente é, sem importar qual será a reação da platéia.
À você uma música... "Eu não paro - Ana Carolina"

Renan: À você um colchete de significados que cabe apenas a nós dois. ;)

Ilka: "aquele abraço..."

La Pasta: À você todos os meus "mínimos óbvios" e meus momentos de delicada acidez.

-> ... todos os olhares e sorrisos que guardo sem saber...

- x -

Que todos possam ter um pouco do Pessoa na pessoa para que a cada dia os questionamentos mais sórdidos venham em forma de poesia.

17 janeiro 2007

# Quarta - feira (um segundo)

Delicada Atração de Hettie MacDonald
Queria aquele beijo de volta... o sofá e seus segredos guardados, a inocência do toque firme e puro, da sinceridade de horas, de olhares cúmplices, de defesas quebradas.
Fui tolo e agora desejo ficar só, acompanhado, mas só. Você não vai entender e entendo que não seria preciso... entenda apenas que preciso.
...
Volta e me leva de novo ao ambiente onírico que te conheci, me leva de volta às letras singelas e melodias inquietantes, às mãos confusas e os olhos fixos, me leva à boca trêmula que se aproxima mas deseja apenas boa noite... aos braços de abraço, ao corpo que tenta virar páginas.
Me põe o Vagabundo no som e tenta esquecer os constrastes... relembra os encaixes.
A incrível facilidade com que as coisas acontecem me assusta. Festejam uma suposta batalha vencida, um futuro resumido em três letras de carga negativa, uma fantasia falida.
Andam pelas ruas com seus rostos familiares e sorrisos maliciosos.
Sem incomodar ninguém, viro a próxima esquina e me encontro com ninguém... nada mais propício que uma encruzilhada com um buraco no asfalto coberto pela água da última chuva refletindo meu rosto e todo o caminho atrás de mim, aquele mesmo que eu queria tornar passado mas que se apresenta belo demais para fingir que não aconteceu.
Belo demais... talvez a coisa mais bela que eu já tenha vivido, talvez o propósito mais absoluto que me impulsiona a continuar um caminho que parece chegar a lugar nenhum...
... e dizem que clichês um dia param de serem reais e constantes, mas a esperança fez um pacto divino e ganhou imortalidade e nome gravado nos livros de história.
"Não é fácil não pensar em você. Não é fácil, é estranho não te contar meus planos, não te encontrar todo dia de manhã enquanto tomo meu café amargo.
É, ainda boto fé de um dia te ter ao meu lado..."
[ Não é Fácil de Marisa Monte ]

15 janeiro 2007

# Segunda - Feira (como do lado de fora...)

Delicada Atração de Hettie MacDonald
(...)
[ Jamie ]
- É da minha mãe... creme de hortelã para os pés. Relaxa os pés... deita, eu passo nas suas costas... se você quiser.
(deita de costas enquanto Jamie levanta com cuidado sua camisa)
[ Steven ]
- Uhn...
[ Jamie ]
- Fria, não?
[ Steven ]
- É...
[ Jamie ]
- Ste... você já beijou alguém... metendo a lingua?
[ Steven ]
- Com essa cara?
[ Jamie ]
- Você não é feio!
[ Steven ]
- Eles me deixaram feio.
[ Jamie ]
- Mas eu não te acho feio.
[ Steven ]
- Vou ficar fedendo a menta.
[ Jamie ]
- Hortelã.
[ Steven ]
- Hortelã...
[ Jamie ]
- Vira para eu passar na frente.
[ Steven ]
- Não posso... apaga a luz.
[ Jamie ]
- Não.
[ Steven ]
- Por favor...
[ Jamie ]
- Não quero!
( Steven vira-se escondendo-se com o lençol)
[ Jamie ]
- Já vai dormir?
[ Steven ]
- Estou exausto.
[ Jamie ]
- Posso dormir do seu lado?
[ Steven ]
- Não!
[ Jamie ]
- Por favor.
[ Steven ]
- Fique onde está!
( Jamie deita, pouco tempo depois Ste vira-se e deita ao lado dele)
[ Steven ]
- Satisfeito?
(Ficam quieto por um instante. Jamie apaga luz e beija Ste)
[ Steven ]
- Você acha que sou uma bicha?
[ Jamie ]
- Não importa o que eu acho... posso tocar em você?
[ Steven ]
- As feridas estão muito sensíveis.
[ Jamie ]
- Eu sei...
(...)
Não Vá Embora - Marisa Monte

10 janeiro 2007

# Quarta - feira (ínicio)

Delicada Atração de Hettie MacDonald

Voltei ao que foi esquecido naquela esquina que passei antes de tornar-me exemplo do que não volta, daquilo que some e sopra em direção a cegueira dos olhos de alguém.
Virei poeira...
Voltei para algo que ainda não consigo tocar, tampouco entendo ou visualizo, mas que está lá... aqui... em algum lugar do Eu que realmente deveria importar mas não se respeita nem sabe como fazê-lo.
Sou a peneira...
Voltei para errar novamente e rir dos perfeitos. Ser alheio ao circo montado todos os dias pela futilidade cotidiana de quem insiste em acordar e simplesmente abrir os olhos.
Sou apenas os passos...
Voltei para mentir afirmando esquecer o que é marca, o que sufoca e satisfaz. Voltei sem querer. Voltei não por ter ido, mas por nunca ter saído desta esquina, dessas letras garrafais, destes verbos que me escondem, destes substantivos que me limitam, dos adjetivos que me descrevem.
Sou a interjeição...
Voltei sem rimas, sem conceitos... com soluções prontas e imediatas... até algo dar errado. Voltei convicto, mas ainda me falta acreditar nisso.
Sou a contradição...
Voltei apenas com a dúvida do que fazer primeiro... voltei sem fazer nada e decidi não ser, pois sendo e apenas sendo é que precisarei da dúvida.
Sou as entrelinhas...
... avesso ao branco e presente nele como marca, estampa caricaturada com um rosto simples e delicado, como crianças que se atraem, como o amor que não escolhe colchão, apenas deita de costas para o abajur.
[ Ninguém - Pato Fu ]