31 maio 2007

# Quarta - Feira (Pré-fabricando)

Antes do Pôr-do-Sol de Richard Linklater

Ele tinha razão. Preciso de ajuda.
Você teria dito todas aquelas coisas se soubesse que não poderião se realizar? que nós não poderiamos ser conjugados no plural? Teria me sorrido aquele sorriso? Roubado aquele beijo? Sei que não...

E foi só um beijo... bastou só um beijo e eu te esperei. Até a pouco eu te esperava, mas o tempo mudou e eu não tenho roupa de frio comigo. Minha camiseta surrada e a velha calça jeans não sustentam essa falta. Procurei esse sustento naquelas cartelas e num homem que me observava como quem julga e não foram de grande valia, apenas deixaram minha camiseta mais fina e meu tênis molhado... estou sem meias.

...

Los Hermanos parecem mais claros hoje para mim, quase não existe complexidade em seus versos, predomina apenas uma obviedade irritante. Contradições.

Hoje estou pontuante:

Eu quero. Eu não quero. Eu sinto. Eu preciso. Eu estou. Eu não consigo.

Assim, um nó. Cada ponto liga-se a canto nenhum, as reticências não possuem destinos certos e as vírgulas sobram em meu discurso.

Fico preso a uma canção que se repete no display e é como se, sem ela, eu não conseguisse prosseguir com isto.Velas me seriam propícias. Acenderia duas altas no tapete, disporia dois pratos e um casal de taças, pegaria um vinho perdido na geladeira ou inventaria algum, talheres e música ambiente. Conversaria com o outro lado e fingiria comer algo... o que achas de massa? eu gosto... Depois de alguns minutos apagaria as velas e deixaria uma meia luz iluminando o quarto. A cama macia a me chamar e eu cedia a seus convites. Noite fria. Viraria pro lado, desejaria boa noite ao travesseiro e dormiria comigo. Seria minha companhia e meu convidado pro jantar. No outro dia acordaria cedo, lavaria a louça de dois, tomava banho com o som ligado, levaria a roupa pra lavanderia e sairia sem perceber que estive só... na verdade continuaria em minha companhia pelo menos até quando isso bastasse...



... hoje, infelizmente, ela não foi suficiente.



O dia começa preguiçosamente lento no centro de São Paulo e penso comigo: "Quarta-feira". Metade de uma semana que mal se sustenta nas próprias pernas mas que insiste em nos arrastar junto até seu fim para descansar. Constatei que vivo querendo descanso, sempre com sono e cansado de sonhos, de sonhar e não durmir, de pensar e não andar. Quero mais agitações em minha vida, ou melhor, quero menos.

Não sei, ficarei com o clichê do "menos é mais". Quero sair só mas acompanhado, achar a companhia, sem destino e sem me perder pois foi me perdendo que me achei e foi me achando que tive de apagar as luzes e procurar outra sombra no caminho... agora ainda não sei como achá-la, mas pretendo descobrir em breve, ou achar-me brevemente.



Vou pré-frabricando meus passos nesse caminho que chamam de rotina e folheando as novas possibilidades dessa cidade que ainda não me engoliu mas que está esperando ser engolida por mim.

Hoje estou com fome.





"Anda

Tira essa dor do peito, anda.

Despe essa roupa preta e manda

seu corpo deslembrar.

Canta

Vira a dor pelo avesso, canta.

Larga essa vida assim as tontas.

Deixa esse desenganar.

Calma

Dê o tempo ao tempo, calma.

Alma

Põe cada coisa em seu lugar

e o dia virá, algum dia virá

sem aviso

então..."

[ Sem Aviso - Maria Rita ]

14 maio 2007

# Terça - Feira (Autopsicografia de coisa nenhuma...)

"Eles costumam me deixar mais confortável"... é nisso que você tenta se concentrar a todo momento, mas o tempo está mudando e o frio não costuma esperar. As certezas de antes agora não parecem tão certas.

Perdi muito tempo escrevendo cartas? talvez o suficiente para esquecer de mandá-las.
Qual o problema? Será que demoro-me nos detalhes ou acumulo tantas situações que não consigo descrever numa carta a ordem cronológica das coisas, cada momento na sua devida palta, cada instante num parágrafo?

[ PAUSA ]

Ponho aquele filme que tira minhas dúvidas sobre aquele assunto... as dúvidas! São sempre elas as causadoras de toda reação que, em cadeia, desencandeia todos os outros motivos que não me recordo mas que são essenciais para uma determinada cura que procuro e não lembro bem qual é...
Porém é exatamente quando vem as dúvidas, e já não sei se o hoje é ontem ou se o ontem foi amanhã, apenas sei que o presente será no futuro e que este caminho cheio de possibilidades e "respostas para perguntas difíceis" anda meio passado.
O filme diz que é HORA DE VOLTAR, mas quero seguir em frente desta vez.
Estou aqui, sozinho numa cidade de milhões, sentindo o frio chegar, apoiado em travesseiros e buscando o edredon com os pés... queria encontrar outros pés embaixo deles, virar pro lado e encontrar seus olhos ou até mesmo seus ombros, enxergar seu rosto no travesseiro vazio, sentir peso nos dois lados da cama. Por vezes torna-se cansativo acariciar o lençol e sua foto não faz o mesmo efeito, ela não olha pra mim e não me traz seu calor. O perfume continua rondando a casa que ele nunca visitou e o sorriso aparece em cada vão e está pintado no espelho do banheiro.


... De repente esse apartamento pareceu tão grande, olho ao redor e quase me perco em seus metros quadrados, em seus poucos e realmente quadrados metros. Um cubo comigo estampado em todos os lados, corpo e alma separados bem como dedos e olhos, esperando ser montado, tentando se recordar como era quando inteiro. Agora um brinquedo de montar nada educativo. Preciso aprender, reaprender na verdade. Reavaliar os atos, reaver as perdas, reconquistar os bons hábitos e abandonar os duvidosos. Renovar, reciclar, todo um ato de refazer o feito, de reinventar o novo, reavisar os perdidos ou O perdido já que me refiro a mim mesmo.
Começar de novo, como na música, só que desta vez tirando as melodias, ficarei apenas com a sonoplastia básica: passos e portas se abrindo. Criarei a trilha no caminho, adicionando música a cada pessoa e cada momento importante, sem repetir, importâncias não se repetem e minha trilha sonora não terá várias versões será definitiva. "O que é o que é" é minha e os outros que não opinem, eu comando todos os botões desta vez. Djavan será só seu, mas Bethânia pode ser nossa.


[ PAUSA ]


Cadê você que ainda não voltou desse faz-de-conta que inventei para te ter perto de... esquece o tempo e volta pra nossa distância de olhos fáceis. Não consigo manter a aparência de que vou bem caminhando para o lado oposto. Cada um na sua estrada mas quero que a nossa esteja lado a lado. Outro não e a coroa cai, a realeza vai abaixo. Acabou o fingimento, vive apenas o fingidor. Autopsicografia de coisa nenhuma. Volta e estampa meu sorriso ao lado do seu no espelho, mistura nosso cheiro no meu lençol, marca meu travesseiro, toca meu pé com o seu, apoia teus ombros em mim e fecha teus olhos a noite... toda noite... e fica! Aumenta meus metros quadrados, faz minha cabeça parar de rodar e deixa ela se acostumar com teu cheiro. Mistura todas as coisas, me ajuda a desfazer os nós e vamos começar em linha reta. Tomarei minha sanidade de volta longe dos frascos de remédio e permanecerei em pé, prometo... a mim, à você... a mim, prometo pra mim, faço por mim, pensarei em mim... não é esse o segredo? "Mim" antes de verbo mesmo sabendo que está gramaticalmente errado? Eu posso conviver com isso, aprendo fácil. Não são condições, sequer estou perguntando. Afirmo que faço e peço ajuda...


[ PAUSA ]
...
- Fica essa noite?
- Fico... mas não posso prometer que estarei aqui na próxima noite...
- Então não durmirei...
- ... desculpe...
- ... esta noite, você fica?
- Claro.
- Vamos dormir, ok?
- Tudo bem.
- Me abraça...


[ Isobel - Dido ]
23h28
10/05/07