[ Primeiro Ponto ] Disseram-me na rua para eu olhar para frente pois não acharia nada perdido olhando pro chão. Pensei: "mas o que tem essa mulher para se meter entre eu e meus pensamentos?". Ignorei sua (im)posição quanto a minha postura de andar olhando para baixo e continuei meu caminho tentando lembrar que música cantarolava antes de ser interrompido... Lembrei em seguida que tal música não existia, então resolvi inventar uma e saí murmurando qualquer coisa num ritmo que provavelmente alguém já compôs.
A música falava de homens que resolvem seus problemas com lápis e caderno. E não, não estou falando de advogados ou contadores. Homens. Apenas homens. Esses seres que compram cigarros em bancas de jornais e revistas em livrarias que sirvam um bom café. Havia algo sobre ser livre, direitos humanos e "aproveitar o momento" no refrão, mas parei por aí antes que acabasse tornando esse instante em algo político e sem ideologia sustentável.
Quando me vejo estou franzindo a testa e pensando com mais seriedade no assunto e no que eu pretendia com isso. Pensei sobre o que eu queria realmente falar, o que me traria entusiasmo para cantarolar essa canção mais vezes que apenas hoje. E acreditei que queria falar sobre coisas simples, cotidiano, rotina que fosse, algo leve e suficientemente clichê para poder soar agradável e familiar, assim não correria riscos.
Logo alguns chavões emergiam em minha mente, procurei papel e caneta em meus bolsos e rapidamente achei um rascunho amassado para começar a cômpor. O rapaz do caldo-de-cana me emprestou seu lápis de pau que lhe enfeitava o cabelo entre a orelha, e fiquei alí sentado num ponto de ônibus a organizar meus primeiros versos e rimas.
...
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Não pensei ser tão difícil somar dois e dois sem obter cinco como resposta. É como uma antítese constante que me segue por todas as esquinas e sempre que nos encontramos estou olhando para o chão, contando passos e encarando meu all star surrado, quando as oportunidades estão me mirando, atirando gritos nos meus ouvidos e eu cego, mudo o lado da calçada, troco os pés e lavo minhas mãos.
Sendo omisso e inventando músicas tolas para que outros possam me acompanhar. Sendo um Roberto dos anos '80, um rei e um terrível, mas amado por todos. Quando na verdade poderia estar sendo um Caetano do século 21, falar de sexo e ser rock'n'roll.
Mas vamos aos fatos. Jamais serei o que meus dedos não conseguem tocar, tampouco um instrumento de cordas antigas que emitem sempre um mesmo som. Não serei Clarice e o Pessoa continuará sendo alguém a se admirar. Não se pode fazer música assim, sem fardos... ou fatos, sei lá.
...
Como cheguei até aqui? há poucos minutos haviam homens e seus problemas resolvidos, cadernetas e caldo de cana. Agora restam dúvidas e poucas oitavas.
Minha canção rabiscada na cabeça, guardei no bolso e ele, furado, deixou cair no chão...
Minha canção rabiscada na cabeça, guardei no bolso e ele, furado, deixou cair no chão...
[ Segundo Ponto ]
Espetou o dedo numa rosa e pensou dormir como num conto de fadas. Mas o milênio já havia mudado e sua profissão não lhe reservara espinho qualquer.
Acordou chutando o criado mudo como se sua raiva fosse dele. O relógio não despertara e seu atraso estava marcado nos ponteiros. Não era novidade ultrapassar a tolerância no ponto de seu trabalho.
Espetou o dedo numa rosa e pensou dormir como num conto de fadas. Mas o milênio já havia mudado e sua profissão não lhe reservara espinho qualquer.
Acordou chutando o criado mudo como se sua raiva fosse dele. O relógio não despertara e seu atraso estava marcado nos ponteiros. Não era novidade ultrapassar a tolerância no ponto de seu trabalho.
Com os olhos ainda se abrindo, ligou sua máquina e pôs seu fone de ouvido...
- Central de Atendimento ao Consumidor, Marília, Bom Dia.
Indicador no mute e mãos por dentro dos óculos ignoravam as reclamações rotineiras dos desconhecidos estressados que garantiam o alguel todos os meses.
Começou a pensar no que mudaria se ela mesma mudasse...
- Não senhora, nós não devolvemos o dinheiro por uma falha na costura de sua roupa, mas podemos efetuar a troca. Qual o número da nota fiscal, por gentileza?
... e se toda vã filosofia do mundo contido nos livros de alto-ajuda que ela lê-ra fosse apenas um meio fácil de conseguir dinheiro. Pensou também que com todo conhecimento acumulado - e que de nada adiantou - dos livros que devorou ela também já poderia se arriscar a escrever suas "dicas de como viver bem e ser uma pessoa melhor". Talvez ganhasse dinheiro... talvez o fracasso fosse ainda maior....
- Tudo bem senhora, você não será a única na fila do PROCOM por causa disso. Boa tarde.
Um brusco movimento de mãos arrancando seu fone de ouvido junto ao diadema de plástico fez com que a realidade evitada a todo custo tomasse conta da P.A.(*) novamente.
...
Antes das 14h na rua novamente e com uma carta de demissão na mão, Marília fez um caminho mais longo até sua casa e parou naquela praça próximo ao metrô para observar as pessoas passarem. Com um prestigio no colo e sua carta dobrada no bolso traseiro, ela ficou mais duas horas nesse costume juvenil e nostálgico de observar as pessoas em seus afazeres e suas rotinas apressadas e foi para casa com um sorriso de quem acaba de acordar de um conto infantil.
(*)P.A. - Posto de Atendimento
Tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo?...
[Sudoeste de Adriana Calcanhotto]
- Central de Atendimento ao Consumidor, Marília, Bom Dia.
Indicador no mute e mãos por dentro dos óculos ignoravam as reclamações rotineiras dos desconhecidos estressados que garantiam o alguel todos os meses.
Começou a pensar no que mudaria se ela mesma mudasse...
- Não senhora, nós não devolvemos o dinheiro por uma falha na costura de sua roupa, mas podemos efetuar a troca. Qual o número da nota fiscal, por gentileza?
... e se toda vã filosofia do mundo contido nos livros de alto-ajuda que ela lê-ra fosse apenas um meio fácil de conseguir dinheiro. Pensou também que com todo conhecimento acumulado - e que de nada adiantou - dos livros que devorou ela também já poderia se arriscar a escrever suas "dicas de como viver bem e ser uma pessoa melhor". Talvez ganhasse dinheiro... talvez o fracasso fosse ainda maior....
- Tudo bem senhora, você não será a única na fila do PROCOM por causa disso. Boa tarde.
Um brusco movimento de mãos arrancando seu fone de ouvido junto ao diadema de plástico fez com que a realidade evitada a todo custo tomasse conta da P.A.(*) novamente.
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Antes das 14h na rua novamente e com uma carta de demissão na mão, Marília fez um caminho mais longo até sua casa e parou naquela praça próximo ao metrô para observar as pessoas passarem. Com um prestigio no colo e sua carta dobrada no bolso traseiro, ela ficou mais duas horas nesse costume juvenil e nostálgico de observar as pessoas em seus afazeres e suas rotinas apressadas e foi para casa com um sorriso de quem acaba de acordar de um conto infantil.
(*)P.A. - Posto de Atendimento
Tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo?...
[Sudoeste de Adriana Calcanhotto]