19 março 2009
16 março 2009
Na lente
Eu não gastaria minha vida apenas desejando."
Tenho medo.
Descobri agora há pouco. Um fotografia. Foi culpa de uma fotografia. E eu nem estava lá...
... E meu medo foi esse: o de nunca estar lá.
E tentei pensar que era apenas uma fotografia. Mas não funcionou... assim como não funcionam os edredons para quem tem medo de trovão.
Vi tantas fotos, tanta imagem registrada de um par que na verdade são três, cinco, sete... e no meio desse par existem sempre outros ímpares à somar o que o dois já ilustraria tão bem.
Tive medo de passar no tempo e nossa história não acontecer, de ficarmos para sempre na sombra.
- Bobagem! - pensei. - Nossa memória é o melhor dos álbuns que alguém poderia colecionar.
Não tenho dúvidas... as fotografias registram momentos, pequenos instantes de descontração diante de uma lente que podem transmitir sensações, mas que não consegue guardar a essência de quem viveu a paisagem.
Mas ainda assim eu tive medo. Eu fiquei triste ao folhear todas aquelas fotos e nos encontrar separados nelas. Haviam muitas suas, outras tantas minhas, e umas duas ou três nossas, tiradas por mero acidente.
E quanto tempo faz isso? Há quanto tempo existe o nós?
É... há quanto tempo existem os nós?
Não importa... sei que no dia em que desatarmos esses laços que, em antítese, nos separa, acharemos uma foto nossa no meio dos nós. Só nós.
"Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo..."
[ Fotografia de Tom Jobim ]
11 março 2009
Deixe Secar
Cinco da tarde.Ou da noite, já não parece importar.
Dia quente lá fora mas, aqui dentro, algo derrama, algo escorre, transborda como um gozo que não se contém, involuntário. E o prazer não confirmou presença, nem caixa postal, nem voz, nem nada, apenas gozo.
Mancha branca qualquer, quase um carimbo de quem cumpre um compromisso burocrático.
E onde ficamos nós?
A cidade vai vestindo o seu cinza rotineiro e há muita neblina nos humores.
Não consigo te achar e sequer saiste de casa.
Pés no chão, mãos grudadas nos bolsos da bermuda que ficou no tapete do quarto.
Minha cabeça inquieta largou meu rosto na janela chuvosa da sala e cá estou... fragmentado pela casa, uma parte em cada vão e acabo de jogar fora meu sorriso torto em seu vaso preferido.
Pode levar!
Se quebrou agora cola... junta tudo, me põe num copo e bebe. Deixa apenas uma gota secar no carpete para que nada seja esquecido, mas para que a lembrança não deite sempre em nossa cama.
Deixe secar.
Quanta saudade é possível sentir até que se mude de idéia?
Pois é... me diga você.
E, antes de dormir, tome um copo d'água.
Está quente aqui dentro e o gozo secou.
"O carinho do dedo adolescente
que eu poderia fazer em mim
de repente,
não te substitui - nem me ilude
É incompetente!
Parece ter uma plaquinha pregada decente:
'Lugar de outro - não entre.'
Trecho de “Lugar do Outro” de Elisa Lucinda do livro "Euteamo e Outras Estréias"
Assinar:
Postagens (Atom)
