O Fingidor
04 Janeiro 2012
Esquina.
Era exatamente o que precisava fazer.
Definir bem as finalidades das coisas, entendo a prática mas desconheço totalmente as teorias. Não sei viver no papel o que mal conseguimos escrever pessoalmente.
Tenho uma cama grande com espaço restrito. Não consigo dormir no lado em que você deitava. Eu não encaixo. E não é que nossos corpos sejam assim desproporcionais, é que não consigo competir com seu ego.
Chega um momento em que nem você mesmo consegue... e tudo começa a se perder em desculpas e mentiras na tentativa de justificar o nó aí dentro... e mais desculpas...
Mas e o nó que sobrou da primeira do plural, quem desata?
Eu já conjuguei todos os verbos que conhecia e adjetivei todos os sujeitos... e minha gramática não é assim tão boa.
Você lembra daquele primeiro bilhete que deixou na minha mesa quando tudo ainda não era nada, mas já se anunciava confuso e mágico?
Dizia apenas "Eu te acho...".
Nunca ninguém havia me dado tantas reticências para eu brincar... e eu brinquei! Brinquei por anos de preencher com todos os bons adjetivos que me eram oferecidos por você naquela época.
Essa semana encontrei esse bilhete cuidadosamente dobrado na esquina de uma caixa de lembranças, e ao abrir e olhar por algum tempo para aquelas três palavrinhas e aquela imensidão de reticências, eu percebi que não conseguia completar.
Acho que gastamos todos os nossos adjetivos nas últimas discussões.
Tão clichê toda essa coisa de relacionamento, né?
Tentamos insistir numa amizade que não existe e paramos de forçar a barra.
É possível eu querer saber de você sem ter que pensar em você?
Então prefiro não saber apenas pensar já me toma bastante tempo...
03 Setembro 2011
Encarte
Não sei exatamente o porquê, mas tomei esse clichê como elogio e fiquei incrivelmente feliz com isso. Na verdade não tenho certeza se fiquei feliz ou conformado com a afirmação. Independente do sentimento, servia como paleativo para alguns sintomas, mas nunca curava a doença.
Como um bom viciado em música e compulsivo assumido por cds, faço um comparativo com essas mídias que tanto me dão prazer em colecionar.
Sabe, existem alguns cds que gosto muito, são itens que guardo com todo o cuidado e um certo carinho. Faço de tudo para mantê-los conservados e intactos. Algumas vezes por pequenos descuidos, ou simplesmente sem querer, acabam ganhando alguns arranhões, uma capa consegue rachaduras, o encarte começa a criar amassados que você não queria, mas que quando viu já foi.
Não troco as capas, por mais que não goste de ver uma rachadura, penso que elas fazem parte da história, minha e dele, e trocar vai descaracterizar a sua essência.
Não os ouço todos os dias, mas estou sempre revisitando esses 'preferidos', estão sempre guardados em lugares diferentes, as vezes pego e folheio o encarte como que para não esquecer os detalhes, outras vezes para observar melhor os mesmos, muitas vezes só para admirar.
É assim que cuidamos das coisas que nos são preciosas.
E eu não sou tocado há algum tempo... meu encarte parou de ser folheado e ganhei mais rachaduras e amassados do que gostaria.
É certo que o meu conteúdo continuará o mesmo, minha essência não vai mudar, mas não garanto cantar as mesmas músicas sem pular em algumas partes ou simplesmente parar em determinados pontos, a gente trava as vezes, viu...
Esse é o meu conceito.
E não estou muito interessado em ouvir outros.
23 Agosto 2011
Sem Título
Saiu tão depressa que tudo o que restou foi um rastro vagabundo de batom vermelho... ou o vermelho vagabundo do rastro de um batom, pouco importa.Foi tão depressa.
Meu lugar continuava reservado, mas uma outra qualquer esquentava o meu lugar não te deixando sentir saudades minhas.
Deveria me sentir agradecida?
Talvez você não saiba, mas eu sou mesquinha.
Não importa o seu bem estar, suas vontades são as minhas, não era assim que tinha que ser?
Eu não te dava brecha alguma e, mesmo assim, da mínima fenda aberta numa discussão medíocre, você conseguiu cavar todo esse abismo.
Não sei se te elogio inteligente ou aponto sua irracionalidade.
...
Ele vai voltar.
Mas quem saiu fui eu... ou será que não?
Na verdade eu o mandei embora e sai... isso, acho que foi assim que aconteceu... ou quase assim. Ou talvez não, talvez seja o oposto.
Talvez eu até mesmo nem tenha saído, e ele ainda esteja na sala me esperando para resolvermos toda essa confusão. Para resolvermos qualquer coisa. Para bebermos aquele vinho de 'mulherzinha' que, de tão doce, bebemos como suco até os risos mais tolos no final da noite denunciar que seu efeito sobre a gente chegou sorrateiro.
Aí nos deitaremos, diremos coisas bonitas que não ousamos dizer sóbrios, talvez eu deixe escapar minha carência nunca revelada nas entrelinhas... talvez você se assuste e não demonstre... talvez você nem perceba...
Faremos sexo disfarçado de amor e só teremos consciência disso na próxima briga, quando tudo estiver um pouco mais desgastado.
...
Eu lembro de quando tinha os meus dezoito anos e não era metade do que sou hoje... e tenho apenas vinte e quatro. Acho que você me queria mais frágil, menos decidida e mais dependente de você, mais manipulável quem sabe.
Você me amou quando eu tinha dezoito e eu ainda estava aprendendo a andar por esses caminhos, mas fui madura. Dramática, ciumenta, carente, mas também madura.
E quando eu finalmente aprendi a me entregar, você desaprendeu.
...
Hoje eu quero comprar flores. Como em Mrs. Dalloway, sair de manhã para comprar flores e cumprir esse objetivo, sem desvios sequer no pensamento. Eu mereço flores, todo mundo merece flores.
E vou oferecê-las a você. Será como uma despedida sem sepultamento, apenas a intenção.
Considere-se desterrado daqui, meu doce Romeo.
Minha cena começou e nela não há holofotes para você.
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