14 fevereiro 2007

# Quarta - feira (Adeus, Lenin!)

E Se Fosse Verdade de Mark S. Waters

De Elisa Lucinda
No elevador do filho de Deus

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida
Que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo
Na minha extrema pulsão
Na minha extrema-unção
Na minha extrema menção de acordar viva todo dia
Há dores que sinceramente eu não resolvo sinceramente sucumbo
Há nós que não dissolvo e me torno moribundo de doer daquele corte do haver sangramento e forte que vem no mesmo malote das coisas queridas Vem dentro dos amores dentro das perdas de coisas antes possuídas dentro das alegrias havidas
Há porradas que não tem saída
há um monte de "não era isso que eu queria"
Outro dia, acabei de morrer depois de uma crise sobre o existencialismo
3º mundo, ideologia e inflação...
E quando penso que não me vejo ressurgida no banheiro
feito punheteiro de chuveiro
Sem cor, sem fala nem informática nem cabala
eu era uma espécie de Lázara poeta ressucitada passaporte sem mala com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida ensaiar mil vezes a séria despedida a morte real do gastamento do corpo a coisa mal resolvida daquela morte florida cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos que já to ficando especialista em renascimento
Hoje, praticamente, eu morro quando quero:
às vezes só porque não foi um bom desfecho ou porque eu não concordo Ou uma bela puxada no tapete ou porque eu mesma me enrolo
Não dá outra: tiro o chinelo...
E dou uma morrida!
Não atendo telefone, campainha...
Fico aí camisolenta em estado de éter nem zangada, nem histérica,
nem puta da vida!
Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa não tem aquela ansiedade para entrar em cena
É uma espécie de venda uma espécie de encomenda que a gente faz pra ter depois ter um produto com maior resistência onde a gente se recolhe (e quem não assume nega) e fica feito a justiça:
cega
Depois acorda bela corta os cabelos muda a maquiagem reinventa modelos reencontra os amigos que fazem a velha e merecida pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno, de expersona falida:
- Não, tava só deprimida.


- x -

Incrível como certas coisas acontecem e no dia seguinte você pensa: "houve um propósito para tudo acontecer desse modo?"
Ontem assisti esse filme e - surpresa - gostei bastante.
Hoje? Bom, hoje eu troquei umas palavras com um amigo... e sabe, esse texto é para ele (tem partes necessárias), esse filme é para ele, e toda a minha indignação e - por quê não - minha adimiração também são para ele.

Porque nem tudo é como queremos e, talvez, seria chato se assim fosse.
Porque perder nem sempre significa que acabou e "the end" no fim do filme não significa que não terá uma continuação no próximo ano.
Porque todo coadjuvante pode um dia concorrer e ganhar o premio de melhor ator.
Porque os bons nem sempre morrem cedo nem precisam ser drogados ou ter tido uma infância triste e sofrida.
Porque quem se esforça tem o que merece.
Porque todos têm o que merece e os que não merecem realmente não têm, mesmo que eles achem que sim.
Porque viver não vale a pena se você não fizer o que te agrada e ficar com quem te faz bem.
Porque sorrir nem sempre significa felicidade e lágrimas não são sempre tristes.
Porque desafios vêm para quem pode ultrapassá-los...
... porque esses sempre acham que não são capazes mas aí está o desafio.
Porque ninguém disse que seria fácil, mas nada tem de ser necessáriamente impossível.
Porque amar não é sofrer...
Porque amar também é sofrer...
Mas, principalmente, porque amar é acreditar que tudo será possível de algum modo... é saber esperar... é confiar um pouco nos outros e completamente em si mesmo... é chorar mas é também encarar o espelho no dia seguinte.

Lenin...
é tudo para você... absolutamente.
Não quero mudar suas opinões nem deixá-lo sem graça.
Não quero me meter na sua vida e dizer o que você tem que fazer.
Só não quero que desista de algo que está em você.
Você é assim, se mudar, se virar eununco por opção e "amargo" pelas circustâncias tudo bem, mas o que havia em você antes continuará ai, guardado até que você consiga expor para sí mesmo aquilo que não quer e gritar ainda mais alto o que você realmente deseja.

Clarice Lispector sempre esteve certa, tudo está dentro, os conflitos e as soluções só nós podemos enxergar...

[ Comfort Of Strangers de Beth Orton ]

7 comentários:

FOXX disse...

hummmm

adorei o texto...
amei mesmo

morrer no banheiro
feito punheteiro de chuveiro

e tbm
fico ai camisolenta em estado de éter, nem zangada, nem histérica, nem puta da vida, tow nocauteada, tow morrida!


agradeço pelo texto pra mim
adoro textos pra mim
adoro³³

leoninos são assim
adoram

mas tb adorei a expressao
"eunuco por opção"

acho q este é o caminho q estou tomando... desistindo de algo... tow cansado

Menino G disse...

Que louco!!!
Sei lá o que dizer, to digerindo o texto ainda. To sangrando, ressurgindo, ressuscitando.
beijos

Divorciado disse...

Gostei demais do texto (Elisa Lucinda)...ñ conhecia ñ.
Quanta coisa boa tem escrito aqui, acho q eu nunca passei por aqui. Vou voltar com mais tempo pra ler os antigos.
Um abraço pra vc.
Bom Carnaval

Egídio La Pasta Jr disse...

Casa noca. Aberta e em reforma. Venha!

La Pasta disse...

O endereço...

mouris disse...

esse lugar está muito movimentado.

me sinto meio deslocado.

hauha

Tônio disse...

Oi garoto, engraçado, eu venho aqui leio um texto seu, adoro, as vezes até copio uma parte e imprimo pra diregir mais vezes (sou daquele tipo de gente que guarda textos impressos, minha mãe guarda receitas), dai eu sumo um pouco e quando volto vejo você se superando, bom-ti-vê, bom-ti-lê, mais uma vez. Abraço. Tônio