08 junho 2008

Um passado.

Apareceu correndo em meio aquele emaranhado de galhos secos e folhagem rasteira. Escondeu os chinelos de dedo e saiu deixando as pegadas miúdas no barro maciço.

- Ela estava parada...

Pés pequenos e acostumados com a pressa do corpo, com a urgência dos pensamentos precoces que dilatam a mente menina a cada cantar do canário travesso, a cada correr do rio ligeiro.

- Ela ficava estática...
Parou com medo. Até então não conhecia como vento tal sopro frio que lhe percorria a face ao andar em direção contrária, que lhe queria oposto ao pisar, que se fazia disposto a guiar.

- Ela rezava calada...

Olhou com medo o mar. Não pensava poder ser salgado o que molhava-lhe o rosto pela manhã, o que lhe enxarcava os corpo antes de dormir. Como podia não matar-lhe a sede aquela imensidão, ora verde ora azul, ora escuro ora céu?
Sem entender, deduziu ser feito de mar, ao sentir o gosto salgado, a lágrima que rolava em seu rosto.

- Ela sorria inerte...

Pensou com receio, não costumava sentir o pensar. Achava mesmo que não pensava e assustou-se ao constatar que apenas em achar já pensara algo, mesmo que de resultado duvidoso.
Descobriu também que pensar não é ter certeza, é simplesmente esquecer que existe chão por baixo dos pés. Ao menos ela definira assim.

- Ela apenas era...

Ela seria simplesmente assim: alguém que estava, que ficava, alguém calada, um sorriso, uma prece...
Ela era e apenas deveria ser.
Era o motivo pela pressa do menino, o chão, o caminho, parecia ser seu destino.
O objetivo, a omissa, a premissa... seria, quem sabe, a vida.
[28/setembro/2006]

2 comentários:

FOXX disse...

vc é um domador de palavras

Nanda Assis. disse...

estou extremamente encantada com tudo que li aqui. vc é muito bom.
vou linkar seu blog. bjoss