13 fevereiro 2014

(Fé)licidade

À Procura do Amor (Enough Said) de Nicole Holofcener

O que seria a vida senão uma eterna procura?
Estamos sempre a procura de algo, uma incessante busca por algo que nos preencha.

Buscamos um amor arrebatador que nos traga completude.
Buscamos um pouco de paz na arrebatação desse amor que encontramos.
Buscamos a satisfação no trabalho enquanto reclamamos da falta de qualidade de vida que temos na cidade grande... enfim.

Buscamos o que chamamos de felicidade.

E até que encontremos, não saberemos dar-lhe o nome que merece.
Queremos a segurança de uma certeza, de que podemos pisar e o chão não irá ceder facilmente.
Mas não...
Não há certeza na felicidade... por isso estamos sempre em busca dos pequenos momentos em que ela se apresenta e cometemos o erro... não, o erro não, o simples engano - nem sempre tão simples, porém mais comum que o desejado - de nos apegarmos muito a eles, a esses pequenos momentos, quando deveríamos vivê-los mais intensamente para que sua marca, quando os mesmos passarem, continue ressoando através de nós.

Perdemos tanto tempo ponderando, estabelecendo os medos, determinando os limites do que pode e do que não pode, colocando rótulos, dedos, enfim, obstáculos tantos que, muitas vezes, quando ela aparece, nem percebemos e deixamos de aproveitar a leveza de um momento que poderia ser mágico... e por que? por questão de nomenclatura? 

Paramos tanto para ouvir a opinião do outro a respeito do que fazemos - ou deveríamos fazer - das nossas vidas, que o sentir da coisa toda se perde no caminho, nas palavras "sábias" de terceiros que nem conhecem nossa cor favorita e já palpitam sobre o que ou quem é bom para a gente.

E sabe o que é pior?
Nós deixamos o "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", muitas vezes, ditar o que é mais seguro para nós, e desistimos antes mesmo de tentar.
Sua experiência com algo ou alguém nunca será a mesma que a minha, por mais semelhante que as histórias possam parecer.
Eu sou um ser único... assim como você... assim como um terceiro qualquer que eu decida agregar a minha vida.

...

Não sou um sábio.
O que eu digo não se escreve.
O que eu faço, por vezes, é impronunciável.
Mas o pudor - e a falta dele - é só meu.

...

Eu quero experiências extremas e extremamente leves.
É isso... extremos!
É assim que eu quero.

Eu faço questão de sofrer o que for preciso num depois, se o durante for incrível... e não aceito menos que isso.

Não quero me machucar de novo...
E eu me pergunto: E quem quer?
E quantas vezes dizemos isso... 

Mas quero repetir a parte boa dos processos todos, e cada vez mais intensamente... 
Onde está sua fé? 
A parte ruim, bom, essa é inevitável, mas vem diferente com cada um... e nada de "eu sabia", eu quero é amar sem me preocupar com o porquê ou se é cedo ou tarde... eu quero amar sem balanças quantificando a qualidade e a importância de um sentimento que eu nem sei de onde ou como surge... se de um beijo ou um bom sexo, de um sorriso, um olhar ou de meia dúzia de encontros, pouco importa! quem está contando?
E essa é a minha busca...

Em nossas procuras todas, vivemos um eterno recomeço.
Enquanto não chegarem os próximos capítulos, vamos rabiscando as páginas em branco que nos forem dadas.

E boa sorte.

17 outubro 2013

Na varanda.


Veio num papel.
Não um papel qualquer, um meio pardo, amassado na varanda.

Sim, eu lembro que não temos varanda.
Mas se tivéssemos, ele teria sido encontrado lá.
Ainda assim havia um vaso de planta na porta. Sem plantas. Fiquei de luto quando nossa ráfia morreu seca de saudades suas e não a substitui.

O engraçado é que se você estivesse aqui diria que não foi secura de saudade, foi da minha desatenção em regá-la a causa da morte.
Eu, como de costume, iria rir sem argumentos.
Você não acharia graça, mas riria por mim. Ou de mim. Nunca decifrei aquele sorriso.

Mas não me tire a atenção com sua ausência, falava do papel.
Ou do que viria nele.

A notícia de um acidente de carro.
Tolo, assim como os que vemos todos os dias no telejornal local.
Sem sobreviventes para se aproximar ainda mais da realidade dessas tragédias diárias televisionadas.
Um amigo estava no meio.

Voltei a ler sobre os sobreviventes.
Procurei um tempo.
Ah!
Não constava essa palavra sem uma negativa antes.

Preciso dizer:
Não havia papel. Estou romanceando para reter qualquer coisa aqui dentro.

Eu ficava quieto quando queria chorar, você lembra disso?
Claro que lembra.
Você sempre perguntava se minha alergia estava atacada como fingido que não sabia.
Eu respondia que sim e você sorria de canto de boca atrás de mim quando eu não estava olhando.

Em segredo te digo:
Eu sempre estava olhando. E você sabia.

Morreu.
É o que falo quando me perguntam.
Frio?
Morreu. Faleceu. Partiu dessa pra melhor. Se foi. Nos deixou.
Qual a diferença?

- Tato, Márcio.
- Ele já morreu, não preciso mais me preocupar com nomenclatura.

Eu diria algo desse tipo, não é mesmo?
Fico intolerante à cortesias quando estou tentando ser forte.
Não me distraia.
Não consigo fazer essas duas coisas ao mesmo tempo.

Eu odeio me despedir.
E odeio a impossibilidade de fazê-lo.

Se eu pedir pra você ficar,
por hoje,
você fica?
A varanda está uma delícia hoje a noite...

06 setembro 2013

Híbrido de Olhos Claros

"É preciso começar de alguma maneira..."

Preservo as aspas pois não me parece minha a afirmação, tenho certeza de que a ouvi em algum lugar, passei os olhos por ela, mas não lembrarei onde.
Poderia ter sido por uma simples vírgula, dois pontos como nos ensinou Clarice em um de seus romances, uma interjeição...
Era preciso apenas um trecho, uma passagem qualquer da vida dele que nunca seria mais uma, nem tampouco uma qualquer.

Contradições.


(...)

Acordava cedo todos os dias, tomava seu suco com as laranjas que ele mesmo comprara na feira de sábado, saía rumo ao trabalho... mas trabalho já não havia. Há meses não havia. E ainda assim eu teimava em esquecer. Na verdade eu queria era lembrar... E ele lembrava. E é dele que eu preciso falar.

- Bom dia seu José.


Repetia religiosamente o cumprimento ao encontrar o zelador no térreo e se esforçava em sempre alternar os nomes, por não se dar ao trabalho de perguntar. Ele achava que uma hora acertaria e reconheceria num olhar de surpresa.


No caminho do trabalho ia fazendo listas do que era preciso melhorar...
- Preciso acordar mais cedo;
- Não deveria dormir tão tarde;
- Tenho que voltar pra academia;
- Preciso renovar minha carta de habilitação;
- E o meu carro hein? Será que consigo comprar até ano que vem?

É engraçado narrar isso... essas listas são mais que planos não realizados, é o diário que ele nunca escreve. São desejos bobos de uma rotina que podia ser mais interessante, mais desafiadora, mais bonita, que podia ser, por vezes, simplesmente mais! Às vezes acho que ele pensa assim...

E há um item que volta e meia o assalta pelas manhãs, num folheto colado na madrugada em um poste qualquer do centro, num comentário ou numa foto de rede social...

"Eu podia ir embora."

Mas pra onde? Como? Quando?

Ele não sabe, mas anseia, deseja. Ele trocaria seu nariz vermelho dos fins de semana por um par de asas... de um Pombo Correio, quem sabe, para poder saber o caminho de volta quando falta sentisse, mas com um canto bonito de pássaro que pudesse ecoar e deixar sua marca onde quer que ele fosse.

É isso. Um híbrido de olhos claros.

(...)

Eu podia estar aqui falando em mim, floreando uma história minha, criando detalhes narscisitas, mas não deixei de fazê-lo.
Estou alí do lado como observador constante, me inserindo nessa rotina, doando minhas laranjas, meus meses sem trabalho e criando uma estória nova, uma estória inventada.

Hoje, quando me perguntam o que sinto por ele, eu não sei dizer.
Falar em amor, em paixão, em desejo é tão fácil, até mesmo tão banal as vezes...

O que eu posso dizer é que quando penso nele eu penso em mar, eu penso em pôr-do-sol, eu penso brisa, eu tenho vontade de cantar uma música que eu gosto, eu penso num livro que me deu prazer em ler, eu penso num filme que gostaria de rever com ele, eu penso em sair por ai dançando sem vergonha de parecer ridículo, eu penso numa rede, em ninar no seu balanço, eu penso em me balançar e me perder, eu não penso em adormecer, mesmo dormindo eu só penso em acordar, em abrir os olhos, em mergulhar... me sinto um menino, me sinto um homem, um bicho, humano...

E eu penso e sinto tudo isso de uma só vez, todas essas linhas de palavras soltas contidas num nome que, pronunciado, desencandeia todas essas sensações em milésimos de segundos.

Se ele tem um nome?
Ele tem... tem sim... mas aprendi com uma canção em proteger esse nome por amor... não em um codinome qualquer, mas dos lábios pra dentro.

(...)

Ainda não me recordo de onde vem a frase inicial, sei apenas que era preciso começar de alguma maneira... era preciso começar...
Se vai durar?
O quanto nos permitirem.... e já será muito bom, pois seja o tempo que for, será pouco, pois vivemos uma eternidade todos os dias.


[Versão não definitiva do texto. Rascunho 2]



30 janeiro 2013

Faxina


O que antes era um aperto constante e um nó que não desata, agora já se conforma um pouco mais em resistir a verter.
Tudo ainda está aqui, numa represa contida, ainda que frágil.

Faz pouco...

Não há músicas novas a serem tocadas e mesmo as antigas já não consolam.
Ainda se buscasse consolos, mas não, busco a melancolia que se oferecer, busco o choro, o desabafo.
Quero tudo pra fora, casa limpa, plantas aguadas. 
Quero verter toda a idealização que criei, lavar as janelas.

Depois de tudo limpo, tudo às claras.
É assim que vai ser.
Quero meu espaço organizado para bagunçar tudo novamente, e outra vez, e de novo, e de novo... com você, talvez.
Ainda seria minha melhor opção, se assim pudesse, se assim quisesse, se.

A faxina não foi concluída e ainda se demora.
Minha hora tem 24 horas.
Meus dias são extensos.
Meus metros já não são quadrados.

(...)

"E agora, José?"
Quando tudo parece refeito, o desafio é recomeçar. Abri o casulo.
Na convicção mentirosa da não expectativa podemos decepcionar o que não estávamos esperando.
Como por ironia.
Mas fingir maturidade é o que fazemos de melhor.
Das nossas lágrimas sabemos nós.
Do que não mostramos, do que não cedemos.
Dos nossos nós, apenas nós.

04 janeiro 2012

Esquina.



Era exatamente o que precisava fazer. 
Definir bem as finalidades das coisas, entendo a prática mas desconheço totalmente as teorias. Não sei viver no papel o que mal conseguimos escrever pessoalmente.
Tenho uma cama grande com espaço restrito. Não consigo dormir no lado em que você deitava. Eu não encaixo. E não é que nossos corpos sejam assim desproporcionais, é que não consigo competir com seu ego.
Chega um momento em que nem você mesmo consegue... e tudo começa a se perder em desculpas e mentiras na tentativa de justificar o nó aí dentro... e mais desculpas...


Mas e o nó que sobrou da primeira do plural, quem desata?
Eu já conjuguei todos os verbos que conhecia e adjetivei todos os sujeitos... e minha gramática não é assim tão boa.


Você lembra daquele primeiro bilhete que deixou na minha mesa quando tudo ainda não era nada, mas já se anunciava confuso e mágico?
Dizia apenas "Eu te acho...".
Nunca ninguém havia me dado tantas reticências para eu brincar... e eu brinquei! Brinquei por anos de preencher com todos os bons adjetivos que me eram oferecidos por você naquela época.
Essa semana encontrei esse bilhete cuidadosamente dobrado na esquina de uma caixa de lembranças, e ao abrir e olhar por algum tempo para aquelas três palavrinhas e aquela imensidão de reticências, eu percebi que não conseguia completar.
Acho que gastamos todos os nossos adjetivos nas últimas discussões.
Tão clichê toda essa coisa de relacionamento, né?
Tentamos insistir numa amizade que não existe e paramos de forçar a barra.


É possível eu querer saber de você sem ter que pensar em você? 
Então prefiro não saber apenas pensar já me toma bastante tempo...

03 setembro 2011

Encarte


Algumas vezes você me disse que eu era o bem mais precioso que você possuia...


Não sei exatamente o porquê, mas tomei esse clichê como elogio e fiquei incrivelmente feliz com isso. Na verdade não tenho certeza se fiquei feliz ou conformado com a afirmação. Independente do sentimento, servia como paleativo para alguns sintomas, mas nunca curava a doença.

Como um bom viciado em música e compulsivo assumido por cds, faço um comparativo com essas mídias que tanto me dão prazer em colecionar.

Sabe, existem alguns cds que gosto muito, são itens que guardo com todo o cuidado e um certo carinho. Faço de tudo para mantê-los conservados e intactos. Algumas vezes por pequenos descuidos, ou simplesmente sem querer, acabam ganhando alguns arranhões, uma capa consegue rachaduras, o encarte começa a criar amassados que você não queria, mas que quando viu já foi.
Não troco as capas, por mais que não goste de ver uma rachadura, penso que elas fazem parte da história, minha e dele, e trocar vai descaracterizar a sua essência.
Não os ouço todos os dias, mas estou sempre revisitando esses 'preferidos', estão sempre guardados em lugares diferentes, as vezes pego e folheio o encarte como que para não esquecer os detalhes, outras vezes para observar melhor os mesmos, muitas vezes só para admirar.

É assim que cuidamos das coisas que nos são preciosas.

E eu não sou tocado há algum tempo... meu encarte parou de ser folheado e ganhei mais rachaduras e amassados do que gostaria.
É certo que o meu conteúdo continuará o mesmo, minha essência não vai mudar, mas não garanto cantar as mesmas músicas sem pular em algumas partes ou simplesmente parar em determinados pontos, a gente trava as vezes, viu...

Esse é o meu conceito.
E não estou muito interessado em ouvir outros.

23 agosto 2011

Sem Título

 
Saiu tão depressa que tudo o que restou foi um rastro vagabundo de batom vermelho... ou o vermelho vagabundo do rastro de um batom, pouco importa.
Foi tão depressa.
Meu lugar continuava reservado, mas uma outra qualquer esquentava o meu lugar não te deixando sentir saudades minhas.
Deveria me sentir agradecida?
Talvez você não saiba, mas eu sou mesquinha.
Não importa o seu bem estar, suas vontades são as minhas, não era assim que tinha que ser?
Eu não te dava brecha alguma e, mesmo assim, da mínima fenda aberta numa discussão medíocre, você conseguiu cavar todo esse abismo.
Não sei se te elogio inteligente ou aponto sua irracionalidade.
...

Ele vai voltar.
Mas quem saiu fui eu... ou será que não?
Na verdade eu o mandei embora e sai... isso, acho que foi assim que aconteceu... ou quase assim. Ou talvez não, talvez seja o oposto.
Talvez eu até mesmo nem tenha saído, e ele ainda esteja na sala me esperando para resolvermos toda essa confusão. Para resolvermos qualquer coisa. Para bebermos aquele vinho de 'mulherzinha' que, de tão doce, bebemos como suco até os risos mais tolos no final da noite denunciar que seu efeito sobre a gente chegou sorrateiro.
Aí nos deitaremos, diremos coisas bonitas que não ousamos dizer sóbrios, talvez eu deixe escapar minha carência nunca revelada nas entrelinhas... talvez você se assuste e não demonstre... talvez você nem perceba...
Faremos sexo disfarçado de amor e só teremos consciência disso na próxima briga, quando tudo estiver um pouco mais desgastado.
...

Eu lembro de quando tinha os meus dezoito anos e não era metade do que sou hoje... e tenho apenas vinte e quatro. Acho que você me queria mais frágil, menos decidida e mais dependente de você, mais manipulável quem sabe.
Você me amou quando eu tinha dezoito e eu ainda estava aprendendo a andar por esses caminhos, mas fui madura. Dramática, ciumenta, carente, mas também madura.
E quando eu finalmente aprendi a me entregar, você desaprendeu.
...

Hoje eu quero comprar flores. Como em Mrs. Dalloway, sair de manhã para comprar flores e cumprir esse objetivo, sem desvios sequer no pensamento. Eu mereço flores, todo mundo merece flores.
E vou oferecê-las a você. Será como uma despedida sem sepultamento, apenas a intenção.
Considere-se desterrado daqui, meu doce Romeo.
Minha cena começou e nela não há holofotes para você.

20 julho 2011

Last Night de Massy Tadjedin

Last Night de Massy Tadjedin

- Você acaba de arruinar essa cozinha pra mim.
- Como?
- Por estar aqui... eu venho aqui sempre, e agora você esteve aqui.
- Ok então... Lembre-me... por que não deu certo?
- Geografia.
- As pessoas vivem entre duas cidades.
- Eu não. Nem você. O tempo também.
- Você tinha acabado.
- Temporariamente, tecnicamente, tanto faz.
- Nós voltamos depois de já ter ficado por muito tempo juntos. Você apareceu depois.
- Então você ficou com ele porque ele chegou primeiro?
- Sim, e eu o amava. E eu também te amo... e eu te amo por poder te dizer a verdade. E eu amo... lealdade, dedicação, e toda essa merda, mesmo neste momento.
- E isto?
- Isso? Eu não sei, isso é o isso! Isso só é isso porque há algo entre mim, o meu casamento com Michael, você e os seus problemas... as coisas.
- Aqui tem alguma coisa pra beber?... Quais são as minhas coisas?
- Nada, eu não estou criticando. Eu sei que se fôssemos em frente a gente ia dar certo. Tornou-se tão difícil porque não discutiamos, a gente sabia que não dava certo entre a gente.
- Você não queria.
- Não!
- Não?
- Fui a Paris por dois meses!

- Não coloque isso contra mim.
- Não uso nada contra você.
- Estava terminando um livro, eu estava cansado demais para saber o que você significava pra mim.
- Devia significar que você queria ficar mais tempo comigo. Mas isso não importa mais.
- Não não não, pra mim importa. Porque eu sou aquele que tem que ver você aqui. Eu sou o único que tem que ficar vendo essas fotos, vendo essas fotos de você nessa vida... O quê? Eu era o que você precisava pra ter certeza com o Michael?
- Não, não funciona assim. Eu, eu acho... talvez eu nunca quis esta mudança. Mas tudo, tudo muda... tudo muda, mas isso permanece o mesmo. Pelo menos pra mim, os sentimentos são os mesmos. Eu... eu te vi esta manhã... e no meio das noites, quando eu não consigo dormir, eu ainda penso em você.

[ Do filme Last Night de Massy Tadjedin ]

02 junho 2011

227


Há quase meio ano
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale o absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então.

[Martha Medeiros]

28 maio 2011

o que ele não diz



"Certo, muitas ilusões dançaram.
Mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo,
eu faço força para manter algumas esperanças acesas,
como velas."
[Caio Fernando Abreu]

Não é a intenção.
Na verdade eu já não sei qual o motivo ou a razão, mas depois que acontece eu sei exatamente o que eu não pretendia.
Mas agora eu já fiz.
Mesmo sabendo eu preferi mentir. Pensando bem, acho que não foi uma questão de preferência, simplesmente resolvi mentir. Dessas resoluções que tomamos sem muitos precendentes, quando nos damos conta já foi.
Mas o tamanho do estrago nós que definimos, o tamanho da mentira poderia ser menor. Sempre existe um momento em que podemos desfazer e magoar menos, e na maioria das vezes deixamos esse momento passar.


Eu fiz isso.
Deixei o momento passar.
Várias vezes.
E veio à tona como não poderia imaginar.
Murphy sempre pregando suas peças, e hoje com o advento das redes sociais eu já deveria prever, mas não faço cálculos, não conto as cartas, nem ao menos sei jogar, não sei porquê insisto.


E realmente não pretendia magoá-lo... eu gosto dele, realmente o amo. Ao menos é o que digo a ele.
Ele acredita.
Eu também.
Então há de ser verdade.


O que acontece com essa relação? Por que não consigo ser sincero o tempo todo com ele se a abertura é a melhor que tive em décadas? Qualquer outra pessoa não teria a metade da compreensão que ele tem comigo. Então o que há nele que me bloqueia?

Não não, calma lá...
Por que o problema tem de estar nele?
Talvez eu seja um tanto egoísta. Digo que a situação não é confortável para mim mas não faço nada para mudar, então, realmente, talvez seja um pouco confortável sim... mas não mais que um pouco. Ou menos que isso.


Eu o trai.
E poderia usar qualquer desculpa para justificar, mas não preciso.
Sinceramente eu preciso, mas não tenho que fazê-lo, não há o que justificar.
Ele perdoo. Não esqueceu, sei que não, mas tentou manter a normalidade depois de alguma discursão e nenhuma explicação da minha parte.
Mesmo assim eu me afastei... não o procuro há semanas e tenho certeza que estas já compõem pouco mais de um mês.


Não há sexo.
Não há beijos.
Sequer conversas.
Nossa relação se mantém em algumas mensagens de textos curtas e burocráticas.


"bom dia. bjo"

E derivações de acordo com o horário do dia, e mesmo essas já não são uma constante.
Eu disse que precisava ficar um tempo comigo mesmo.
Ele me deu esse tempo. Não é a primeira vez que acontece.
Não me acho no direito de dizer que ele entendeu, sei que não há o que entender depois de tanto tempo, mas prefiro acreditar que sim...
O mais engraçado é que eu o trai, eu não o procuro há tempos, e mesmo assim quem me deu um 'tempo' foi ele.


Não vou questionar.

Penso nele diariamente.
Quase o tempo todo, ou ao menos quando consigo respirar algo que não seja trabalho.
Tento pensar que ele acredita em mim quando digo isso a ele, mas é apenas um jeito de não me sentir tão responsável pela infelicidade nos olhos dele... naqueles mesmos olhos que já vi tanta vontade, tanto sonho, tanta vida.

E quais serão os sonhos dele hoje? sei tão pouco do que o motiva nos dias atuais.

As vezes penso que seria melhor terminar tudo de vez, me afastar, deixar ele encontrar alguém que consiga dar a ele o que eu não posso.
Mas como vou ficar sem a presença tão constante dele?
Como vou dividí-lo? deixar outro tocá-lo?
Já tentei algumas vezes... acabei, machuquei, feri, já não conto as vezes que o fiz chorar e sentir alguma espécie de raiva de mim, mas sempre volto atrás, aos poucos começamos tudo outra vez, ele volta a confiar e se entrega a mim, e eu o magoo novamente.


O que me fez procurar uma terceira pessoa?
Seria hipócrita dizer que procurava uma solução... um paleativo talvez.
Mas se era só sexo, por que eu precisava seduzir esse personagem secundário de uma história que já é tão complexa?
Para magoar uma terceira pessoa?
Muitas perguntas... mas eu sou assim, destrutivo as vezes.


Como isso vai acabar?
Gostaria de saber... gostaria muito de saber...
Tantas coisas podem acontecer, são tantas pessoas que tento proteger, que tento preservar, e no final acabo magoando as que mais prezo.


Mas ta tudo certo.... mesmo estando tudo errado...

27 maio 2011

(ao) meio

"me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia."
[Martha Medeiros]
Eu fantasiei tantas coisas que esqueci de segurar o espelho antes que ele se quebrasse às minhas costas.
Catando os pedaços não consegui criar uma unidade.
Nem dele, nem minha.
Mas li em algum lugar que não existe uma unidade realista pra chamar de minha em lugar algum.
Algumas religiões afirmam que existe uma unidade divina, então talvez seja isso mesmo, não existe unidade ao nosso alcance e, talvez por isso, criemos certas fantasias, para preencher lacunas.

E mesmo em fantasias é preciso manter um pé na realidade, mesmo um algo criado, imaginado e colocado como real.
O que seja.
Afinal, vez ou outra, não conseguimos mais colar o que foi quebrado e temos de substituir... ou simplesmente abrir mão.
Há momentos em que algumas lacunas necessitam que a deixemos abertas para que outros cheguem e preencham.

[ o inverso também. ]

(...)
... e eu quis dizer a verdade, mas não tinha ninguém lá para ouvir meu discurso dramático que só um leonino consegue fazer.
Havia um palco imenso só para mim e um teatro disponível, mas não havia público nem flashes, não havia nada, só um eco perturbador que gritava em meu ouvido tudo o que eu repetia na esperança de que você ouvisse.
Mas você não sabia!
Não tinha como saber!
Eu não te contei... não te avisei, não enviei convite, sequer comentei... e ainda assim eu esperei por você a noite toda... até a noite virar dia e noite novamente.
Penso que espero até hoje e, de certa forma, cobro sua presença.

Não sei se quero sua atenção ou sua compreensão... sei que não quero mais nada que você possa oferecer, quero o que você não me oferece. Quero chegar onde você não deixa, onde nem você ousa entrar por medo de seu próprio ferrão.
Quero aquele beijo que eu tinha e hoje você me dá em doses homeopáticas como que por agrado.
Não quero agrados ou brindes, sou eu quem dou os presentes!
Dispenso a boa educação, me agrida, brigue comigo, grite, esperneei... mas saia da zona de conforto e me confronte!
Nenhum leão domado dorme por tanto tempo se não há assistência, persistência... ele acorda e se volta contra o domador, morde e vai embora.
Lamenta, mas ai já é tarde, já passou, a boca já foi fechada e os dentes cravados.
Não aprendi a fazer reconstituição, pois ainda tento me livrar do veneno de seu ferrão.

(...)
... e eu sei que estarei sentindo isso até que você acabe com tudo, com tudo que não houve começo e sim um meio interminável...

"fidelidade é não contar pra ninguém."
[Martha Medeiros]

08 março 2011

Carnaval cinematográfico

Bruna Surfistinha de Marcus Baldini

Confesso que esse foi daqueles filmes que logo que anunciado pensei: "puro sensacionalismo. cinema feito pra vender a custa de sexo e popularidade de assuntos pouco interessantes e batidos.". Pensem comigo... sexo, prostituição e drogas, convenhamos, não são lá os assuntos mais originais do cinema brasileiro na atualidade. Mas daí acrescente a internet dando voz a uma garota de programa que teve uma idéia (talvez a única) bem sucedida de usar a blogsfera para se promover e criar atrativos para o produto mais consumido da internet: SEXO! E 'boom', escreveu um livro sem ter terminado o colegial (ao menos pelo que aparenta no filme, não vou me dar ao trabalho de pesquisar a respeito) que vendeu muito dentro e fora do país e "se" vendeu para o cinema. Sacada de gênio. Mas e ai, o filme é bom?!
O filme tem BONS momentos... me surpreendeu a performance da Deborah Secco e a agilidade da direção. Mas se formos analisar o roteiro, deixa muito a desejar. Não sei como é o livro, pois não o li e talvez haja grandes chances do roteiro ser melhor que o livro, mas se isso for verdade é realmente uma pena, pois foi ai que os roteiristas (3 se não me engano) perderam uma ótima oportunidade.

Vale a pena ver e recomendo, a história tem lá suas brechas e motivos rasos para uma série de pontas que não se unem no final do filme (como o real motivo dela ter saido de casa, para mim não ficaram mais que algumas divagações de uma adolescente confusa escrevendo em seu diário), mas tem boas interpretações, uma boa direção e uma trilha sonora que faz toda a diferença.

Rango de Gore Verbinski

"Rango" é daquelas animações que não são exatamente para crianças. Com um tom sarcástico e diálogos ágeis e completamente funcionais, Verbinski põe toda sua experiência adiquirida na franquia "Piratas do Caribe" e cria uma animação memorável.
O filme tem uma temática que vem sendo bastante explorada em todos os meios artísticos atualmente, seja na música, no cinema, artes plásticas, enfim, a questão da falta de água e de todo o capitalismo e trocas de interesses por trás disso é o grande tema por trás do filme. Claro que esse é o plano de fundo da animação, pois o que dá interesse e humor ao desenho não é o "problema social" e sim as crises de identidade do camaleão título do filme e das personalidade encontradas no decorrer da história.

Em resumo, dá pra rir, pensar, torcer e ainda curtir as vozes de Johnny Depp como o protagonista Rango, Alfred Molina como um sábio tatu de beira de estrada, a pequena miss sunshine Abigail Breslin como uma ratinha que cobra as promessas que são feitas pra ela. E aqui também vemos toda uma comunidade nada bonitinha como os desenhos costumam mostrar, aqui temos ratos, topeiras, morcegos, tatu, cobras, calangos, jabutis e mais uma série de bichinhos feios e com pouca cor.

Ótimo para um fim de noite.

O Vencedor de David O. Russell

Eu não sou fã de boxe, que fique claro, acho desnecessário e completamente desinteressante. Mas o vencedor, que não é apenas um filme sobre boxe, me fez ficar na ponta da cadeira torcendo a cada minuto como se eu estivesse presenciando cada cena e entendesse um pouco daquilo.
O filme é eletrizante, com um início um tanto documental e totalmente necessário, conta a história de dois irmãos, um que era o grande orgulho de uma cidade por conta de seus feitos no boxer, porém com a carreira interrompida devido ao envolvimento com o crack, e o outro que vive na sombra desse primeiro, mas que se torna campeão mundial após vencer algumas amarras.
Com atuações vicerais de Christian Bale e Melissa Leo, e uma coadjuvante de peso como Amy Adams, o filme é uma delicia de se ver. Delicia? boxe + drama + sangue + drogas = delicia? Eu diria que direção + fotografia + ótimas atuações + montagem e edição = delicia!
"Ah, mas e o Mark Wahlberg?" Gente, vamos deixar assim que já ta bom demais.

Cegueira de Fernando Meirelles

Ok. Eu ainda não tinha visto o tão comentado - para o bem e para o mal - 'Cegueira' e depois de um tempo confesso que havia perdido a vontade. O que me fez mudar? por incrivel que pareça quando assisti "José e Pilar", o documéntário maravilhoso que fizeram sobre o José Saramago e sua mulher Pilar, eu fiquei com vontade pois vi a emoção que ele sentiu ao ver o filme, então, porquê não?!
O filme é surpreendente em diversos aspectos que não vou somar nesse post, mas eu li o livro e sem dúvida não tem comparação, mas julgando ser duas artes completamente opostas, literatura e cinema, conversam de uma maneira ímpar nesse filme. Cenas que nunca imaginei serem possiveis de transmitir eu encontrei nas tomadas do Fernando Meirelles.
Não tenho muito o que comentar, o filme é de uma sensibilidade incrivel e foi uma ótima surpresa.

Atração Perigosa de Ben Affleck

Um filme do Ben Affleck... uau!
Não esperava que ia encontrar um filme bem amarrado como encontrei. Confesso que não achei grandes maravilhas, mas tecnicamente (pelo pouco que entendo e consigo julgar) eu achei ok. O roteiro, que também tem a mão do galã (oi? em 2011? deixa pra lá), é funcional e cumpre seu papel. Tem ótimas cenas de ação e um desfecho eletrizante.
Vale a pena pretigiar o segundo e melhorado resultado do diretor/ator. Ah, falando nisso, fica a dica para no próximo ele não se dar o papel principal. Consigo pensar em pelo menos 5 atores que fariam o papel dele muito melhor e com um orçamento modesto.

Victor ou Victoria de Blake Edwards - versão Broadway de 1995

Há pelo menos 4 anos atrás eu conheci o filme de 1982 e achei maravilhoso! números incriveis, uma Julie Andrews em excelente forma, um roteiro excelente, números coreografados magnificamente e boas e extensas eteceteras.
Encomendei o filme numa livraria "x" há algumas semanas, e qual minha surpresa quando chegou e não era a versão que me conquistou e sim a versão da broadway que, apesar de ter boa parte do elenco principal do filme, foi gravada 13 anos depois. Fiquei empolgado mesmo assim e fui encarar as quase 2 horas e meia de musical.
O que dizer?! É Broadway! mas ainda assim a sensação é bem diferente. Claro, teatro e cinema, coisas próximas porém com técnicas diferentes em alguns aspectos e sim, faz diferença. Ambos são ótimos e funcionais, mas tem certas "piadas" que parecem não funcionar muito bem na transposição da tela para o palco, ao menos não para quem assiste de casa.

Como colecionador (um tanto fajuto ainda) de musicais, vale a pena, mas ainda quero meu filme de 1982.

23 fevereiro 2011

Minhas saudades

Nem toda viagem possui areia suficiente para nos sentirmos em casa.
E quando isso não acontece, mar algum parece ser grande o bastante para afogarmos o que quer que seja... mágoas corriqueiras, queixas de uma rotina estafante... êxtases de noites que não duraram mais que duas horas de um dia naquela semana daquele janeiro de qualquer ano esquecido lá atrás.
Esse mar então vira apenas paisagem que não passa, como se estivesse estampada num cartão postal desses que sempre namoramos em bancas de revistas, mas que nunca compramos.

Ninguém mais escreve cartas.
Ninguém mais me escreve cartas.
Quero cartaz.

Nada precisa mudar. Sou flexível e meu jeans vai aguentar ainda mais alguns anos... gosto das coisas duradouras que, mesmo surradas, nos vestem tão bem, se tornam referências de nós mesmos... mesmo que para os outros.
O que me lembra que não gosto de referências, mas parei de me incomodar. O que é contraditório e completamente compreensível... mesmo que para mim.
Sou minha própria referência e as vezes, até mesmo eu, me abstenho dela. Não quero ser um farol, muitas vezes nem achado eu quero ser, viro música instrumental e não deixo rastros, apenas os sigo.

...
E meu mar agora é rio calmo e quase transparente. Olhando através dele você encontra todas as minhas saudades e, se procurar em baixo das pedras roladas, pode até se deparar com um pouco da minha poesia, essa que não mostro a ninguém, mas que é tão livre quanto a correnteza que a guarda.
Lá tem areia suficiente para que qualquer viagem seja como estar em casa, se sentir à vontade, sentir a vontade de querer correr sabendo que pode voltar e deitar em berço quentinho, colo conhecido, colo das boas lembranças e de lembrança nenhuma.

Lá é tão lá quanto aqui poderia ser. E mesmo não sendo assim tão próximo, quando lá chegarmos, o aqui já terá mudado de endereço e lá será mais adiante.
Fluxo natural das coisas, sempre se procura o que já se achou e quando descobrimos isso, já procuramos um outro algo, um outro alguém.

E minhas saudades?
Ahh essas já não estão mais lá... nem aqui... mas onde tiver areia e possíveis mares, muito longe não devem estar.

Crítica de Ari Lins Pedrosa - Livro "Ser Poesia" de Márcio Dorvillé

No início do mês eu recebi uma crítica de um livro que nunca publiquei... essa crítica veio do autor paraibano (residente desde sempre em Alagoas) Ari Lins Pedrosa cujo livros eu lia na minha infância e adolescência. Com aproximadamente 12 livros publicados, sempre admirei sua escrita.
Fiquei muito contente com as palavras dele e foi isso também que me deu um novo gás para continuar trabalhando algo que tanto gosto de fazer... sem mais, segue um trecho da critica.

"Ser Poesia de Márcio Dorvillé"

(...) A poesia é a arte de ver. Ver sempre o novo (mesmo nas formas velhas), com um Ah!!! de admiração, é por isto, que colocamos na luz da nossa poesia, um olhar diferente em tudo.

O livro de Márcio Dorvillé, abre um novo Ah!!! (no espaço e na admiração), não podemos cobrar uma maturidade, mas é visto uma maturação poética, tudo isto é necessário, como um bom vinho, a maturação faz parte da vida. Agora no tocante a técnica poética, deixa traços modernistas, na linha de Oswald de Andrade (poesia e prosa no mesmo texto), sem ferir o conteúdo latente da idade, numa busca do novo, apoiado no dorso das velhas formas.

Na poesia de Márcio Dorvillé há avidez, mas uma avidez metálica, sem a doçura infiel da solidão, que desgasta o ser, tornando este doce um azedume. Este poeta em fase de explosão, tem idéias ricas e luminosas, quando mostra o ser, no seu melhor estado - o frágil.

Márcio Dorvillé, sua poesia deve ser de uso continuo, sempre mostrando a verdadeira identidade deste mundo frio, cheio de aço até nos corações.

Ari Lins Pedrosa
Janeiro - 2011

Obrigado Ari, foi importante para mim.

02 fevereiro 2011

Pause



O que me é dito nos últimos meses eu simplesmente não escrevo.
São tantas e tão soltas as palavras que oração nenhuma aceitaria abrigá-las. E mesmo que assim fosse feito, não creio que seria capaz de classificá-las. Sequer ouso tentar.

O estabelecido foi que tudo seria ritmado e posto em nossa cabeceira para que criássemos a história que nos fosse permitido exteriorizar. Meu ritmo era lento e compassado, o seu um belo de um bolero choroso.
Não fossem nossas diferenças pessoais, seria um casamento e tanto, mas também não era o planejado.
Pensando bem... nada era, certo?

 
"Se eu fosse a sua e não mais uma, as quatro luas eu lhe daria. Pra me tornar sua Maria, uma canção eu cantaria. Minha resposta ao que ouvi, a mais bela melodia, foi roubar pra minha história a sua poesia de outrora."

Não, não... isso não funciona mais comigo. E o ritmo lento e compassado era meu! deixe-me quieto e poupe-me de ouvir os seus boleros que de nada me servem.

Um ano é pouco tempo, e esse nem bem começou e você já me quer por enclausurado em planos que, ambos sabemos, nunca deixarão de sê-los?
Vamos ser um do outro e sermos dois, não quero multiplicar planos preciptados para não ter que dividí-los em poucos meses. Você mal chegou, nem sabe se fica e já não me quer solto pelos caminhos que sempre andei sozinho? audácia!... Audácia essa que tanto me agrada, mas não me ilude mais.

(...)

Dá um beijo e se despede sem pressa, sem prometer que liga ou que volta... simplesmente liga... simplesmente volta... ou simplesmente fica... deixa simples essa história que nem começou.

*Céu - Valsa Pra Biu Roque

20 julho 2010

Sem Acordes

"(...) Aquela gente encantada que chegava e seguia...
era disso que eu tinha medo, do que eu não ficava pra sempre."
[ Trecho de 'Era Uma Vez' de Antônio Bivar ]


Páro por aqui.
Poderia me valer dos clichês de filmes, mas não, ficamos combinados assim.
A verdade é que essa é a hora em que me entrego e, por fim, desisto.
Acabaram os nós... desataram, desgastaram, o embaraço ficou simples, afinal.
Acabou a primeira do plural.
Hora de começar a conjulgar outros verbos, vestir novos substantivos e darmos espaço a novos sujeitos.

Não consigo mais continuar de onde paramos... e onde foi mesmo esse lugar?
Tantas foram as vezes que já não sei como prosseguir com qualquer coisa, de onde quer que seja.
Resolvi romper.
Morro aqui hoje e permaneço assim por um tempo.
Sem acordes.

(...)
Uma música me fez lembrar dos nossos beijos...
Romântico, não?
Confesso que corri atrás dos primeiros anos, primeiros meses, dos primeiros.
Os últimos sempre soavam tão desesperadamente apaixonados, tão urgentes e, de uns tempos pra cá, tão saudosos que era como se cada beijo anunciasse o final de algo que era sempre adiado, sempre mascarado por esse nosso amor atropelado que insiste em bagunçar nossa rotina.
E ele será sempre nosso... o beijo, o amor, o romance, o sexo bom... todos eles.
Mas, sinto dizer, a persistência, agora, é apenas sua...
Comigo, apenas a saudade.

25 junho 2010

Eu, nunca!

"Silêncio por favor... enquanto esqueço um pouco a dor do peito..."
(Para Ver as Meninas - Paulinho da Viola)


Eles querem dormir.
Façam silêncio!
Apaguem as luzes!

Postes, carros, tratores de obras
Olhem o relógio
confiram as horas...
... é tarde!

O descaso é ausente,
mas faz barulho demais...
... sem mas
desculpas não são agasalhos
culpa não é comida.

"Uma moeda, por favor"
rosto pro lado,
mão na carteira:
"Não tenho, não senhor"
...
Quem falou?!
Quem viu?!
Quem Quem Quem
sempre alguém
eu, nunca!

30 março 2010

.Pregos de Martha Medeiros.

Foi de repente. Dois quadros que tenho na parede da sala despencaram juntos. Ninguém os havia tocado, nenhuma ventania naquele dia, nenhuma obra no prédio, nenhuma rachadura. Simplesmente cairam, depois de terem permanecidos seis anos inertes. Não consegui admitir essa gratuidade, fiquei procurando uma razão para a queda, havia de ter uma.
Poucos dias depois, numa dessas coincidências que não se explicam estava lendo um livro do italiano Alessandro Baricco, chamado novecentos, em que ele descrevia exatamente a mesma situação: "no silêncio mais absoluto, com tudo imóvel ao seu redor, nem sequer uma mosca se movendo, eles, zás. Não há uma causa. Por que precisamente nesse instante? Não se sabe. Zás. O que ocorre a um prego para que decida que já não pode mais?".

Alessandro Baricco, não procurava desvendar esse mistério, apenas diz que assim é. Um belo dia a gente se olha no espelho e descobre que está velho. A gente acorda de manhã e descobre que não ama mais a uma pessoa. Um avião passa no céu e a gente descobre que não pode ficar parado onde está nem mais um minuto. Zás. Nossos pregos já não nos seguram.

Costumamos chamar essa sensação de "cair a ficha", mas acho bem mais poética e avassaladora a analogia com os quadros na parede. Cair a ficha é se dar conta. Deixar cair os quadros é um pouco mais que isso. É perder a resistência, é reconhecer que há algo que já não podemos suportar. Não precisa ser necessariamente uma carga negativa, pode ser uma carga positiva, mas que nos obriga a solicitar mais força dentro de nós.

Nascemos, ficamos em pé, crescemos e a partir daí começamos a sustentar nossas inquietações, nossos desejos inconfessos, algum sofrimento silencioso e a enormidade de nossa paciência. Nossos pregos são feitos de material maciço, mas nunca se sabe quanto peso eles podem aguentar. O quanto podemos conosco? Uma boa definição de felicidade: Ser leve para si mesmo.

Sobre os meus quadros: foram recolocados na parede. Estão novamente fixos no mesmo lugar. Até que eles, ou eu, sejamos definitivamente vencidos pelo cansaço.

09 março 2010

Sem Título


"...e, sem querer magoar, eu acabei te magoando mais."

Você avisou desde o inicío.
Eu me fiz de rogado e apostei que seus olhos sempre me protegeriam de qualquer coisa.

Eu avisei desde o início.
Mas você teimou em dizer que eu ainda era um menino.

E com tantos meios que arrumamos na tentativa de não magoar um ao outro, cá estamos os dois magoados.
A premissa era simples: ser sincero sempre!
E quem começou a mentir?
Culpados?
Não vale a pena procurar um... acabariamos perdidos no meio de todos os dedos que colocamos nos últimos meses de conversa. Tanta prolixidade que para dizer bom dia era preciso firma reconhecida em cartório... e a sua assinatura não vinha conferindo com o padrão que eu tinha.

E vice-versa.
(...)

E o que sobra agora?
Para mim sobra tudo! nada joguei fora nem nada foi devolvido ou pedido reembolso.
Todos os beijos são meus.
Todos os momentos e pés trocados são nossos... e o certificado de garantia veio sem vencimento, não há contratos.

Mudou.
Agora mudou tudo.
Isso... exatamente agora.
Assim, como quem vai do quente ao frio ao piscar os olhos.
Não consigo sentir nada.
Se, de longe, me dá vontade de chorar, não há água para sair.
Não consigo evitar.
E não me culpo, ou me julgo, ou me sinto mal por isso... simplesmente não sinto.
Nada. Absolutamente.
Nas últimas horas... cerca de umas 38, 39 horas, acredito... existem momentos dentro dela em que me sinto uma Consul problemática... fria quando não deve e derretendo tudo o que deveria permanecer fresco por pelo menos um mês.

E uma única pergunta é a dona da minha curiosidade:
Quando a gente deixa um pedaço nosso com alguém, mas assim, um pedaço grande e importante da gente, quanto tempo leva para pararmos de sentir essa sensação de vazio?
Não que eu queira nada de volta, pelo contrário, nada existe nesse pedaço que possa ser devolvido e nada eu pediria.
É teu.
Guarda.
(...)

Era o que eu precisava?
Acho que não tenho dúvidas...
Mas meu coração é burro... enquanto digo que estou aliviado ele espanca suas portas dentro de mim para lembrar que alguém aqui dentro precisa de um band-aid.
E eu, tentando acalmá-lo, digo apenas:
- Calma... não se preocupe. É apenas saudade. E, apesar de não sarar, com o tempo você consegue adestrá-la e pode até vir a ser uma companhia agradável.

... Ele não é bobo, mas minha cabeça é persistente.
Com quantos sopros se faz uma balão de ar?

25 fevereiro 2010

Meu Verbo


"(...) Por isso, qualquer sentimento é bem vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia.
Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado para fora.
Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta.
Fazer é muito barulhento."

Retirado do conto "A Alegria na Tristeza" de Martha Medeiros.

De todos os sentimentos que eu poderia nutrir por você
esse que sinto
é o único que não sei nomear.
Ele vem marcado com alguma espécie de signo que não sei decifrar como um touro prestes a arrebatar algum lugar aqui dentro e eu não consigo domá-lo...
Vem vestindo um jeans claro e camisa verde oliva, barba feita mas que já me arranha o queixo num bom dia, rosto fechado mas um sorriso aberto em minha caixa de entrada. Quantas contradições... tanto mel em banho maria que meu rosto se confunde em sim e não... talvez, é o que me alimenta durante o dia.

O resto é o inesperado...
...caixinha de surpresa, poesia em papel de bala.

Sua esferográfica rabiscou qualquer coisa em meu braço e desde ontem não quer sair... e esse ontem já faz tanto tempo que penso ter sido proposital esse grafite injusto que marca e não fica, pois já não consigo acompanhar seus pés com meus olhos.

Mas marcou... gado sem rumo e sem rebanho... ovelha desgarrada por um braço qualquer que ninguém sabe o nome, mas que sua voz continua a me confidenciar num vento discreto.
"Sua"... e de quem é esse pronome? quem é o dono da voz e dos verbos que me conjugam as vontades e assumem as diretrizes dos meus desejos?

Quem...
Onde...
Como...
Por que...

Clichês que precisamos para nos situarmos no mundo... ou apenas numa situação.
E eu que desejava apenas chão sob meus.